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Vacina, viagem e vingança

Viagem revanchista é o termo que caiu no gosto e na fé dos profissionais do turismo. Trata-se de uma modalidade de turismo com o objetivo de se vingar da pandemia causada pelo COVID-19. O isolamento e todas as dramáticas perdas que o vírus impôs ao mundo seriam revidadas, muito em breve, com celebração. É a versão atualizada da expressão sambando na cara da sociedade, em que a sociedade seria substituída, neste ano de 2021, pelo coronavírus. Números apresentados pelo Google mostram um recorde na busca por viagens. Há quem diga que os números sempre serão crescentes uma vez que o acesso à internet se faz cada vez mais democrático. Mas tal furor não se viu em outras pesquisas.  Nem em serviços essenciais.  Nunca na história do motor de buscas, internautas buscaram tanto por roteiros de viagens, reservas de hotéis e passagens como nesses últimos meses, em especial nos EUA, após o início da vacinação.

Já se imaginava uma demanda reprimida. Mesmo nessa coluna tal reflexão encontrou espaço no ano passado. Mas os números se mostraram muito mais animadores que qualquer projeção, por mais otimista que fosse. A recuperação das atividades se mostra muito mais veloz que em qualquer situação de crise passada. Acredita-se que as perdas acumuladas nos últimos 12 meses serão recuperadas em menos de 36 meses. As companhias aéreas estadunidenses, em especial American Airlines e Delta, também estão revendo sua oferta aérea, retomando rotas e números de lugares. O mesmo tem sido observado em países em que a vacinação da população se mostra avançada. Em Israel e no Reino Unido as atividades comerciais, educacionais e até mesmo artísticas já retornam à normalidade. Assim como os números de internados nos hospitais. O colapso nas UTIs parece ter sido um pesadelo do qual essas nações já se livraram.

A gestão Biden, inclusive, já incentiva até mesmo o turismo da vacina. Não se sabe qual a origem da expressão “fazer do limão uma limonada”, mas é bem possível que tenha surgido nas Treze Colônias. Faz parte da cultura norte-americana identificar um problema, montar uma operação militar para resolvê-lo e em seguida lucrar em cima.

É claro que a vacinação é a única ferramenta possível para uma retomada da economia. É o raciocínio mais básico em qualquer teoria. Quanto mais pessoas imunizadas, mais circulação segura, mais atividades normalizadas e menos gastos com saúde pública. E é por essa razão que não se consegue entender até o presente momento como é que o Brasil, que sempre fora referência em vacinação, com erradicação, inclusive, de muitas doenças graves encontra-se em uma posição tão desprivilegiada.  Não se trata somente da decisão equivocada de um indivíduo ou da incompetência de um ministro. Onde estavam os inúmeros empresários e altos executivos de empresas que não pressionaram pela compra de vacinas?

Como indivíduos que frequentaram as mais caras e prestigiosas escolas de ponta em economia e gestão de negócios não se mobilizaram para exigir do poder público respostas rápidas para imunização da população? Não se trata apenas- e deveria ser por si só o primeiro e mais importante argumento- de solidariedade. Trata-se mais do que isso, de miopia econômica. Como é que se permitiu um indivíduo no Itamaraty gabando-se de colocar o Brasil em posição de pária do mundo, brigando com as duas maiores economias do mundo – China e EUA de Biden- sacrificando o esforço de muitas empresas criando dificuldades para a compra de vacinas? O resultado é que hoje, quando o texto está sendo escrito, apenas 6 países não fecharam as fronteiras para o Brasil.

Faz alguns anos que campanhas anti-vacinas ganharam, infelizmente, projeção. Não apenas por conta de grupos religiosos, mas também ateus e agnósticos apaixonados por teorias de conspiração. E ignorar tanta bobagem trouxe graves consequências.  Não se importar com a divulgação de fake News também é importante fator que nos levou ao cenário que presenciamos. Um sentimento revanchista, de polaridades, e, portanto, biliar, é o responsável pela situação gravíssima que passamos. É urgente a recuperação da racionalidade, do sangue frio, da lógica capitalista.  O turismo precisa disso para salvar empregos, empresas e recuperar mais rapidamente o tempo perdido. Para isso é preciso um esforço e uma união para conter o número de infectados. Não haverá turismo de revanche com a economia enfraquecida, pessoas com medo de viajar e fronteiras fechadas. Vacina e racionalidade. A política, a economia e a saúde não comportam emoção nem crendices.

Por Ricardo Hida, diretor de criação e conteúdo na Promonde para o Brasilturis Jornal em junho de 2021.

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