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Pandemia e o custo do aprendizado

Culturas organizacionais de grandes corporações abusam da expressão “custo de aprendizagem”. Embora não mencionado formalmente nos orçamentos, ele existe. Trata-se de um valor que as empresas deixam de ganhar ou perdem por conta de uma decisão errada, causada pela inexperiência de um ou mais colaboradores. Há quem o utilize, inclusive, como justificativa para evitar demissões. Gestores de pessoas entendem que um indivíduo, quando não erra propositadamente ou por displicência, aprende a lição. Uma vez que já houve o prejuízo, a situação fica pior se o indivíduo, mais experiente, vá trabalhar na concorrência.

Lidar com custo de aprendizagem exige maturidade. É preciso reconhecer o erro e no lugar de se culpar, se responsabilizar. São verbos diferentes porque expressam significados distintos. Culpa vem com autopunição, espírito de autossabotagem. A responsabilidade, por outro lado, passa por entender que toda ação tem uma consequência. E em seguida a reparação. Mas principalmente aprender com o erro e não mais repeti-lo.

O cenário dramático que vivemos neste 2021 é decorrente de um vírus, mas também de uma série de decisões e ações desorganizadas, tardias e erradas, não só do governo brasileiro, mas de múltiplas nações. Cientistas, economistas e empresários já anunciavam que uma pandemia poderia causar um cenário caótico e economicamente depressivo. Subestimar o covid-19 foi talvez o maior erro cometido, por governos e sociedade civil. Todas as outras trapalhadas – sociais, econômicas, culturais e sanitários- tem um ponto inicial, a minimização do problema.

Angela Merkel e Boris Johnson tomaram decisões equivocadas, mas buscaram consertar o imbróglio. Joe Biden atuou como bombeiro diante do incendiário Donald Trump. Todos aprenderam com os erros. E no Brasil? Certamente o turismo entendeu o tamanho do problema porque sofreu um rombo gigante no bolso. Companhias aéreas, hotéis, operadoras estão depauperados. Muitas agências quebraram. Ora, não poderia ser diferente. O setor que enfrentou guerras, atos terroristas, flutuações cambiais não tinha protocolos para pandemias. E mesmo que tenha aprendido como lidar, diante de futuras ameaças, sempre sofrerá, ainda que em menor grau, abalos financeiros importantes.

Hotéis buscaram alternativas. Novas fontes de receita, além da hospedagem, foram descobertas. Quartos e suítes se tornaram room-offices, salões de empreendimentos hoteleiros se tornaram estúdios e até salas de aulas.  A profecia se cumpriu e se tornaram centros de serviços e entretenimento. Companhias aéreas, operadoras, seguradoras, agências de viagens e transfers não tiveram as mesmas oportunidades. De forma que qualquer outra pandemia ou mesmo a continuação da atual é um risco grave para a sobrevivência de muitas empresas do setor.

Como já dissemos nesta coluna, no primeiro semestre do ano passado, é possível que a pandemia se torne uma endemia. Não se trata de futurologia, mas estudos da OMS e demais autoridades em epidemiologia. Assim como a gripe, o covid-19 poderá exigir vacinação anual. Por essa razão, ter grande parte da população adulta brasileira vacinada até setembro é um objetivo louvável e fundamental. Mas é preciso, desde já, se pensar em campanhas de vacinação em 2022 e a manutenção de muitos protocolos de segurança para todo o sempre. A Pfizer já anuncia que está dando início a negociações para doses no ano que vem. E me preocupa a possibilidade de novos e-mails não respondidos. É claro que ainda estamos ansiosos pensando na vacinação de 2021, mas isso não exclui o planejamento para o próximo ano.

Sim, haverá um novo normal. Achar que tudo será igual a julho de 2019 é teimosia. Mesmo burrice. É ignorar o custo trágico e trilionário do aprendizado pelo qual todo o planeta passou. Vacinação anual é fundamental. Assim como desenvolvimento de medicamentos. Mas protocolos rígidos de biossegurança não poderão ser descartados em sua totalidade. Até porque variantes, mas novos vírus não podem ser descartados.   Sabe-se que a adoção do hashi, o hábito de cumprimento sem se tocar, apenas se inclinando, e outros hábitos que japoneses adotam foram respostas a problemas sanitários do passado.

Relações sociais deverão mudar. Novas etiquetas e tecnologias vão surgir. Mas o passado deve servir de parâmetro para o futuro.

 

Por Ricardo Hida, diretor de criação e conteúdo na Promonde para o Brasilturis Jornal em julho de 2021.

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